Publicado em

Emoldurando janelas (parte 1)

Emoldurando janelas – parte 1

São Paulo, 18 de agosto de 2020
Fui criança nos anos 1980 e cresci acostumado a ver uma prática fotográfica em família: minha mãe registrava parte do cotidiano em casa ou em eventos especiais/comemorativos, e também a maioria das viagens que fazíamos como núcleo familiar de pai, mãe, irmã e eu. Até aí nada diferente de muitas outras famílias, dos amigos e amigas, de parentes.
 
Eu tinha o hábito de recorrer aos álbuns de foto em momentos de tédio em casa, para ajudar a passar o tempo. Todas as fotos eram registros familiares, desde a época da minha mãe solteira, casamento com meu pai, os nascimentos da minha irmã e o meu, até alguma saída mais recente que havíamos feito. Minha mãe não tinha costume de fotografar qualquer outra coisa, qualquer outro assunto. Eu conhecia todas aquelas imagens, e cada lugar ou contexto dos momentos que elas mostravam. Mesmo assim gastava horas me divertindo de passar as páginas plastificadas e identificar fotos favoritas. Hoje vejo isso, talvez, como uma primeira sensibilização de construção de afetos com base em sensações próprias, e menos por seguir o que alguém sempre nos diz quando somos crianças: “respeitar os mais velhos, ser educado com vô e vó, ser amigo das irmãs/ãos“, …
 
Recentemente (em 2018) eu conheci através de uma série de encontros com a artista e pesquisadora Lívia Aquino (sobre sua tese de doutorado transformada em livro, Picture Ahead – a Kodak e a construção do turista-fotógrafo) que essa prática da minha mãe podia ser, também, reflexo de um longo período em que um fabricante de câmeras e filmes fotográficos fez uma construção mercadológica gigantesca, baseada em publicidade, para popularização da prática fotográfica. Com essa construção de mercado, a designação da câmera “como companheira para todas as ocasiões, incluídas as viagens e saídas a campo, (…) colabora para a instituição de hábitos que ritualizam e ordenam a experiência de fotografar e os modos de consumir fotografia. (…) todos passam a ser fotógrafos em potencial e em ordem planetária“. Muito doido pensar que a gente hoje em dia pensa que foram os smartphones que fizeram isso, mas vejam que não; que isso é uma construção mercadológica que vem de décadas atrás. Décadas mesmo! Século, praticamente.
 
Lívia também traz uma questão muito interessante sobre como a memória foi se tornando um valor na sociedade moderna também a partir de ações mercadológicas de fabricantes: “Desde os primeiros anúncios, a Kodak reconhece o apelo à memória com a fotografia, principalmente a partir do potencial de histórias que podem ser criadas. O relato das férias, o feriado de verão, a viagem de inverno, um passeio de barco: tudo é motivo para ser lembrado. Esses protocolos de viagem envolvem modos de ação e situações que constroem um discurso sobre a importância da lembrança. Com a estratégia da facilidade e do acesso difundidos pela Kodak, as memórias passam a ser cultivadas e comercializadas, como o próprio hábito de viajar, em um processo constante de internalização de um costume que, paulatinamente, vai sendo compreendido como fundamental.
 
[ NOTA _ Essas são questões bem relevantes em debates sobre o fazer fotográfico, sobre as relações com os lugares e as pessoas através da imagem. Nesses relatos do Depois da Curva vou deixar para abordá-las em outro momento, pois elas são mais complexas do que essas palavras aqui dão conta agora e porque o rumo dessa prosa vai seguir um caminho paralelo já nas próximas linhas. ]
 
Obviamente, aos 10 anos de idade em 1989 eu não tinha qualquer noção disso (nem de nada!), e só queria saber de reconhecer a mim e meus familiares nos álbuns de fotografia ou fazer poses para minha mãe fotografar.
 
Mas o fato é que de tanto vê-la com a câmera em punho em um determinado momento bateu uma curiosidade de fazer também. De tanto que passei a pedir “posso bater uma foto? ” e minha mãe e pai percebendo que podia ser um interesse genuíno, mesmo que infantil, um dia recebi pelo correio uma camerinha automática que eles haviam comprado ou conseguido não sei onde. Era uma camerinha bem simples, só de apontar e clicar; puro exercício de olhar através do visor. No fundo tem muito mais que isso, mas para a criança de 10 anos que eu era, mais parecia um passatempo. Foi com ela que tive a liberdade de fazer minhas primeiras fotos sem ter que pedir para a mãe emprestar a câmera dela ou sem ter que ficar sendo regulado sobre o quê fotografar. Bem verdade que mesmo com a autonomia da minha própria camerinha ela sempre dizia para não ficar fotografando a toa, além de ensinar a reconhecer as situações de luz/sombra e a se posicionar pela distância da cena para sair um bom enquadramento. Nada mais que isso. Sem controles manuais da máquina, sem técnica ou invenção de moda. Apenas sentir, olhar e apertar um botão.
 
As fotos que ilustram esse texto são dessa época. A de abertura, especialmente, me ajuda a nunca esquecer, só pelo fato dela mostrar as bordas da janela do banco traseiro do carro, do dia em que foi feita, onde estava, com quem estava, o que tínhamos ido fazer no tal lugar. Sou muito feliz de ter feito o clique mesmo que não tenha sido possível evitar a “moldura de janela” (pela rapidez da cena das montanhas passando e com o balanço do carro na estrada, muito provável que eu tenha simplesmente “errado” o enquadramento; certamente não foi nada intencional).
Estrada, 1989
Mar, 1989
Mãe, 1989
Jardim, 1989
Cachorro, 1989
Janela, 1989
Ao longo dos 5 anos seguintes, minha prática de fotografar foi muito inconstante, apesar de gostar bastante. Aquela primeira camerinha já tinha sido passada adiante para alguém e substituída por uma mais moderna: igualmente analógica, igualmente automática (enquadrar e apertar botão) mas com a incrível diferença (para mim) de que avançava o filme sozinha através de um motorzinho dentro dela, após cada clique.
 
Em 1994, quando estava prestes a completar 15 anos, um acontecimento pessoal/familiar me motivou a adotar com afinco a prática de fotografar como uma forma de dar vazão a sentimentos. Havia recém mudado de cidade com a família, me sentia muito deslocado em todos os lugares e sentia muita falta do convívio com as pessoas que haviam ficado para trás, amigos e amigas. Nunca havia passado por qualquer situação de mudança antes, por menor que fosse, e aquela foi bem impactante para aquele momento, naquela idade. Também sentia falta da cidade e dos lugares onde eu tinha aprendido a me reconhecer como cidadão, pertencente a um lugar no mundo. Me perguntava se isso era uma forma de aprender sobre identidade pessoal, mesmo sem dar um nome a isso na época. Aquele espaço já não estava mais. Ao mesmo tempo, no começo estava muito difícil entender a nova cidade, as pessoas, a escola, e eu fiquei tomado por saudades.
 
A partir de então, todas as vezes que visitava a cidade antiga, sentia uma vontade imensa de registrar tudo o que fazia com os amigos, os lugares onde íamos, cenas urbanas. Voltava de lá com muitas fotos e essa era a maneira que eu tinha de lidar com as saudades: sempre ter ao alcance das mãos e dos olhos (e do coração!) uma batelada de fotos frescas. Era como se as imagens me fizessem sentir presente lá com eles; as imagens me transmitiam proximidade e presença. Sentia que meus amigos estavam ao meu lado, e eu ao lado deles, mesmo distante 400 km ou 6h em viagem de ônibus.
 
E isso aos poucos foi me ajudando a ficar mais tranquilo e a querer ter vontade de descobrir coisas legais onde tinha passado a morar. Tentar mesmo, com intenção, ver o que ela tinha que eu pudesse achar interessante (ou não) e como eu me sentia em relação a isso.
 
Essa relação com a cidade foi crescendo aos pouquinhos, e de uma maneira muito curiosa, interessante mesmo.
 
Depois de bem uns 2 anos, estava enfim começando a me entender em São Paulo.
 
… (continua no próximo post , clique AQUI) …
CONTEÚDO SUGERIDO
“Yuba” (2010) / Lucille Kanzawa
https://www.instagram.com/lucillekanzawa/
Durante toda sua infância Lucille conviveu com a comunidade rural japonesa chamada Yuba, em Mirandópolis, interior do estado de São Paulo. Seu pai era o médico que atendia a comunidade. “Quando o telefone tocava e do outro lado da linha se ouvia um incompreensível japonês, eu logo deduzia que era alguém da comunidade à procura de meu pai. E la ia ele com sua maleta marrom, roupa branca impecável e uma admirável disposição. Tudo em nome de uma amizade que o fio do tempo e da memória nunca apagou.” Fotógrafa documental de grande talento e de enorme sensibilidade, Lucille em 2010 lançou o livro que produziu em homenagem à comunidade, à sua história e à sua própria formação como ser humano.
Disponível na Lovely House.